14/01/2026
IRÃ EM CHAMAS, BRASIL NO RADAR: A TEOCRACIA ARMADA, A REPRESSÃO SOB APAGÃO E O CUSTO DE ESCOLHER “AMIGOS” SANCIONADOS
O Irã vive um daqueles momentos em que a História parece caminhar com botas pesadas, e o mundo tenta entender o barulho no escuro. Nas últimas semanas, protestos massivos explodiram, o regime respondeu com uma repressão brutal e, como se isso não bastasse, ergueu um muro invisível ao redor do país: o bloqueio de internet e de telecomunicações. Quando um Estado corta a luz informacional, ele não está apenas “tentando conter tumultos”. Ele está tentando controlar o que o mundo consegue provar.
Nesse tipo de cenário, a primeira vítima é sempre a verdade verificável. As cifras de mortos viram disputa política, e não por acaso. Hoje, circula a alegação de que mais de 12 mil manifestantes teriam sido mortos em poucos dias; essa versão aparece em declaração editorial da Iran International e é ecoada por fontes citadas pela CBS, com a ressalva explícita de que não houve verif**ação independente. Ao mesmo tempo, há estimativas na casa de 2 mil: um oficial iraniano falou à Reuters em “cerca de 2.000” mortos; e a HRANA, segundo a Associated Press, reportou 2.003 mortes. A ONU, por sua vez, fala em “centenas”, citando fontes próprias no país, e menciona estimativas de grupos que passam de 500. O Guardian cita 648 mortes confirmadas pelo Iran Human Rights, com alerta de subnotif**ação e a menção de que algumas estimativas superariam 6.000.
Por que começar por aqui, com números e cautela? Porque o Irã é uma teocracia que entende o poder como narrativa, e a narrativa como arma. Em regimes assim, o corpo cai duas vezes: uma no asfalto, outra no esquecimento. E é exatamente aí que o assunto deixa de ser “apenas” Oriente Médio e vira também Brasil: quando um país escolhe proximidade política, retórica simpática ou negócios com regimes sob risco de sanções ampliadas, ele entra, mesmo que indiretamente, no tabuleiro dos custos. E custos, na geopolítica, raramente chegam com aviso educado.
1) O apagão como instrumento: quando o regime apaga a internet para “acender” o medo
A Anistia Internacional descreve o apagão de internet e telecom como uma tática deliberada para esconder violações de direitos humanos e dificultar a documentação de mortes e abusos. Não é novidade no Irã, nem em outras autocracias. A lógica é simples: se não há vídeo, se não há mensagem, se não há registro, então o Estado ganha tempo para impor sua versão e intimidar famílias, hospitais, jornalistas e qualquer um que tente contar cadáveres.
E aqui entra um detalhe que costuma escapar ao debate brasileiro, tão focado em “posicionamento ideológico”: o apagão não é um evento técnico; é uma decisão política. Quando um governo corta as comunicações em escala nacional, ele está dizendo ao povo: “vocês não terão testemunhas”. Isso muda tudo. Muda o cálculo do manifestante, muda o cálculo do policial, muda o cálculo do médico, muda o cálculo do mundo.
2) A teocracia armada: o que diferencia o regime iraniano de uma ditadura “convencional”
Há ditaduras que se sustentam em um partido, em um generalato, em uma dinastia. No Irã, o poder se ancora numa arquitetura dupla: um Estado formal (presidência, parlamento, ministérios) e um Estado vertical (Líder Supremo e estruturas religiosas), com uma coluna vertebral militar-política que não é mero “exército”: a Guarda Revolucionária (IRGC) e seus braços, incluindo a milícia Basij.
Isso importa porque a IRGC não é só força interna. Ela é também projeto externo. O Irã não se limita a reprimir dentro de casa. Ele exporta influência, armas, treinamento, dinheiro e doutrina por meio de redes de aliados e proxies. E, quando o regime entra em crise doméstica, essa dimensão externa vira moeda de troca: ou para chantagear o mundo (“se nos pressionarem, a região pega fogo”), ou para angariar recursos, ou para manter coesão interna via inimigo externo.
3) Proxies e “eixo” regional: como o Irã se projeta pelo conflito
Um relatório visto pela Reuters, baseado em monitores de sanções da ONU, descreve que a transformação militar dos Houthis no Iêmen teria sido possível por transferências de material e assistência e treinamento providos por IRGC-Quds Force, Hezbollah e especialistas iraquianos, segundo os peritos. O mesmo texto contextualiza que o “Axis of Resistance” inclui Houthis, Hamas, Hezbollah e grupos armados no Iraque e na Síria.
Isso não é detalhe acadêmico. É o coração do problema: quando o Irã financia, treina ou equipa redes armadas fora de suas fronteiras, ele compra influência com violência terceirizada. E isso é exatamente o tipo de conduta que vira base para sanções internacionais, restrições financeiras, bloqueios comerciais e, em casos extremos, para escaladas militares.
O próprio debate ocidental recente reforça essa leitura. Em setembro de 2025, a Reuters noticiou que os EUA designaram quatro milícias alinhadas ao Irã como organizações terroristas e reiteraram a posição de que o Irã é o principal patrocinador estatal do terrorismo. E, do lado financeiro, um documento do Tesouro dos EUA (avaliação de risco de financiamento ao terrorismo) menciona a capacidade de milícias afiliadas ao Irã e o alcance de “proxies” iranianos no contexto pós-7 de outubro.
Você pode discordar da política externa americana, pode criticar sua seletividade histórica, pode apontar hipocrisias. Tudo isso é debatível. Mas uma coisa é objetiva: o sistema financeiro global, sobretudo o que depende de dólar, seguros, fretes e bancos correspondentes, reage à matriz de sanções de Washington e aliados. E países que fazem negócios grandes com regimes sancionados entram no campo de visão.
4) Sanções: o idioma do século XXI para punir sem invadir
O século XX tinha invasões, golpes, bloqueios navais. O século XXI tem, cada vez mais, sanções. A lógica é “estrangular” capacidade econômica, tecnológica e financeira de um regime sem necessariamente pisar com tropas. A União Europeia, por exemplo, mantém um arcabouço amplo de medidas sobre o Irã que vão além do nuclear, incluindo sanções por violações de direitos humanos e suporte a terrorismo, além de outros vetores geopolíticos.
E isso não está parado. Em 13 de janeiro de 2026, a Reuters noticiou que Ursula von der Leyen afirmou que a UE vai propor “rapidamente” novas sanções contra responsáveis pela repressão aos protestos. Some isso à pressão internacional por causa das mortes e do apagão informacional, e o resultado provável é: mais listas, mais nomes, mais restrições, mais risco para quem negocia com as pontas contaminadas dessa cadeia.
5) O ponto que toca diretamente o Brasil: comércio com o Irã e risco de retaliação tarifária dos EUA
Aqui o tema sai da teoria e entra no caixa registrador.
A Reuters publicou, em 13 de janeiro de 2026, que o Brasil teve um superávit comercial de US$ 2,9 bilhões com o Irã em 2025, com exportações concentradas em milho e soja (67,9% e 19,3%). O dado mais explosivo: o Irã teria sido o principal destino do milho brasileiro, importando 9,1 milhões de toneladas. Do outro lado, o Brasil importou cerca de US$ 85 milhões do Irã, incluindo fertilizantes como ureia.
E então vem a frase que deveria acender todas as luzes em Brasília, no agro e nas áreas de compliance de bancos e tradings: segundo a mesma Reuters, Donald Trump disse que qualquer país que faça negócios com o Irã enfrentará tarifa de 25% sobre qualquer comércio com os EUA.
Isso, se efetivamente implementado e sustentado juridicamente e politicamente, é uma espécie de “sanção por gravidade”: você não precisa provar que a empresa brasileira financiou X ou Y; basta estar no raio de negócios com Teerã para virar alvo de pressão.
Perceba a assimetria: para o Irã, o Brasil é um fornecedor crucial; para os EUA, o Brasil é parceiro grande, mas substituível em vários itens e sujeito a barganhas. Quando Washington sinaliza tarifa generalizada, ele não está discutindo moralidade; está praticando coerção econômica. E coerção econômica, quando pega cadeias de exportação, vira inflação, desemprego setorial e disputa política interna. Exatamente o tipo de tempestade que um governo sensato tenta evitar.
6) Por que isso “não é vontade da Nação” vira irrelevante no mundo real: É tentador dizer: “mas o povo brasileiro não quer isso”.
Em termos domésticos, pode ser verdade. Em termos internacionais, irrelevante. O sistema de sanções e retaliações não conversa com o “sentimento nacional”; ele conversa com atos de governo, fluxos comerciais, pagamentos, navios, seguros, bancos, cargas e portos.
Sanções não punem só governos; elas punem também empresas, cadeias logísticas e, no fim, consumidores. E elas punem, principalmente, o elo mais exposto: quem precisa de financiamento, seguro e acesso a mercados.
7) O Brasil tem um problema adicional: o risco jurídico e reputacional
O Brasil possui legislação para cumprimento de sanções do Conselho de Segurança da ONU e mecanismos de indisponibilidade de ativos ligados a designações, incluindo terrorismo e seu financiamento (Lei 13.810/2019). Isso não signif**a que toda sanção dos EUA ou UE seja automaticamente aplicável aqui. Mas signif**a que há um campo de atenção institucional e de compliance que, quando pressionado por parceiros e por bancos internacionais, pode endurecer.
E reputação, no comércio global, é moeda. Se uma trading brasileira vira sinônimo de “porta dos fundos” para cargas iranianas sob suspeita, ela não precisa nem ser formalmente sancionada para sofrer: basta encarecer seguro, aumentar exigências bancárias, perder correspondentes, tomar “de-risking” silencioso. O mercado faz o serviço sujo sem precisar de decreto.
“Mas o Brasil precisa vender”: sim, e exatamente por isso precisa escolher bem o tipo de risco
Aqui entra o argumento mais pragmático, que costuma convencer quem não se move por ideologia.
O Brasil é potência agroexportadora. A agricultura brasileira vive de previsibilidade: safra, contrato, hedge, financiamento, logística. Sanção e retaliação tarifária são o oposto: são incerteza política embutida na planilha. Quando um grande parceiro ameaça tarifa transversal, o custo não f**a “lá fora”. Ele cai aqui: no preço, no frete, na margem, no crédito.
Então a pergunta não é “devemos ou não negociar com o Irã?” A pergunta é: vale colocar setores inteiros da economia brasileira numa roleta geopolítica, justamente quando há alternativas de diversif**ação de mercados e quando o custo de atrito com os EUA pode ser amplo?
E há mais: se a repressão no Irã escalar e a UE ampliar sanções, o cerco aperta em duas direções. Quem negocia com o Irã pode acabar espremido entre rotas, seguros e bancos europeus e, do outro lado, entre tarifas e pressões americanas. A ponte logística vira gargalo, e gargalo vira custo.
9) A dimensão moral (que não pode ser sequestrada por propaganda)
Criticar a teocracia iraniana não exige romantizar qualquer potência ocidental. Uma coisa não depende da outra. O que está em jogo é o direito elementar de um povo protestar sem ser abatido, e o dever do mundo de não tratar repressão como “peculiaridade cultural”.
A ONU fala em “centenas” de mortos segundo suas fontes e expressa horror com a violência, além de preocupação com o uso potencial da pena de morte contra milhares de detidos. A AP descreve mais de 16 mil detidos segundo a HRANA e o contexto de apagão que impede verif**ação independente. O Guardian traz relatos de repressão, vídeos de corpos e a dificuldade de medir a escala real. E, no meio do nevoeiro, surge a cifra “12 mil”, extremamente grave, mas ainda no terreno do não verificável de forma independente, como a própria CBS reconhece.
Isso é material suficiente para qualquer país democrático adotar uma postura clara: condenação inequívoca da repressão, defesa de apuração internacional, rejeição do apagão, apoio a mecanismos de direitos humanos. Sem precisar virar satélite de ninguém.
10) O erro clássico do Itamaraty ideologizado (seja qual for a ideologia): confundir “antiamericanismo” com estratégia
Existe um tipo de política externa que parece forte no microfone e fraca na realidade. Ela troca pragmatismo por pose. Ela acha que “peitar” uma potência é prova de soberania, quando às vezes é só imprudência.
Soberania não é berrar. Soberania é não colocar o país em rota de colisão desnecessária quando há um caminho racional de preservação de interesses. E, numa economia global conectada, interesses não são só “PIB”. São cadeias de suprimento, fertilizantes, crédito rural, seguros marítimos, exportação, dólar, inflação.
Se o Brasil quiser manter comércio com o Irã por razões estritamente econômicas, precisa fazê-lo com a frieza de quem sabe que o mundo não perdoa amadorismo: compliance robusto, rastreabilidade, análise de risco, alternativas de mercado, e sobretudo uma política externa que não pareça torcida organizada de regime.
11) O que o Brasil deveria fazer, na prática (sem poesia, com planilha)
1. Separar retórica de comércio. Diplomacia não é fã-clube. Relação comercial não pode vir embrulhada em simpatia política a regimes acusados de repressão em massa.
2. Auditar risco de “tarifa de retaliação” e cenários. A fala reportada pela Reuters sobre tarifa de 25% para quem faz negócios com o Irã exige um comitê interministerial de crise: agricultura, fazenda, relações exteriores, indústria e bancos públicos.
3. Diversif**ar destinos do milho e soja. Se o Irã é grande comprador de milho brasileiro, isso é uma força e uma fraqueza. Força porque dá escala; fraqueza porque cria dependência de um cliente geopoliticamente tóxico.
4. Planejar fertilizantes. Se parte do insumo vem do Irã (ureia), mapear substitutos e rotas.
5. Apoiar mecanismos internacionais de apuração e condenação ao apagão. A Anistia já enquadra o shutdown como violação grave. A ONU alerta para mortes e possível escalada punitiva.
6. Não virar “hub” de contorno de sanções. Isso destrói reputação e atrai punição. É o tipo de “ganho rápido” que sai caro por anos.
12) Conclusão: o Brasil não precisa de “inimigos”, mas também não precisa de “amigos” que viram sanção
O Irã é uma civilização milenar, um povo sofisticado, e ao mesmo tempo um regime que, quando acuado, escolhe a combinação mais perigosa possível: repressão interna e projeção externa por conflito. O apagão digital é a assinatura do medo. E os números de mortos, ainda que divergentes, já são suficientemente graves para obrigar qualquer democracia a falar com clareza.
Para o Brasil, o recado é pragmático: negócios com regimes em crise e sob pressão de sanções viram risco sistêmico, especialmente quando o principal sistema de punição global não é “tanque”, mas tarifa, banco, seguro e cadeia logística. A notícia de que Washington ameaça tarifa de 25% a países que negociam com o Irã é o tipo de raio que cai antes da chuva. E a UE sinalizando novas sanções é a nuvem escura chegando por outro lado.
No fim, a pergunta que vale ouro é bem simples: por que escolher, voluntariamente, carregar um risco que não é seu? O Brasil pode defender direitos humanos e, ao mesmo tempo, proteger seu comércio e seu povo do impacto de uma guerra de sanções. Isso é política externa adulta. O resto é barulho.