19/01/2026
Marcelo Savi no governo Gilberto Cezar: quando a política acerta — e os caciques se irritam
Sim, Canela ainda pode surpreender. E não, os donos dos partidos não vão gostar disso.
Num momento de lucidez política, o governo Gilberto Cezar acertou em cheio ao convidar Marcelo Savi para comandar o Departamento Municipal de Esporte e Lazer (DMEL). E esse acerto, como era de se esperar, incomodou exatamente quem acredita que política municipal deve funcionar como jogo de War: conquista por território e poder, não por competência.
Mas desta vez o script foi rompido. E o que era para ser uma boa notícia virou motivo de chilique nos bastidores do MDB. Afinal, o que se faz quando um jovem promissor decide abandonar o culto ao cacique para entrar num governo que, gostem ou não, vem entregando?
A cidade é maior que os donos do campinho
Chega a ser constrangedor precisar lembrar, mas vamos lá: Canela não é propriedade de partido nenhum. Muito menos dos seus mandachuvas. Quando uma cidade de 45 mil habitantes precisa decidir entre alimentar egos partidários ou trazer gente com capacidade de execução para dentro do governo, a escolha deveria ser óbvia. Desta vez, foi.
Marcelo Savi representa exatamente isso: um sopro de racionalidade em meio à miopia política. Saiu de um partido onde talento vira ameaça e foi para onde trabalho ainda vale alguma coisa. Seu ingresso no DMEL é uma chance real de oxigenar o setor esportivo, criar políticas públicas permanentes e, quem sabe, tirar Canela do ciclo vicioso das críticas sem ação.
O MDB, esse Titanic com cacique no leme
Não dá para ignorar que o maior perdedor dessa movimentação é o MDB. Mas também, sejamos francos, o partido já vinha tropeçando em sua própria hierarquia faz tempo. O exemplo de Savi escancara um padrão: ou a liderança se submete ao líder supremo local ou é convidada a procurar outro abrigo. Que fique o lembrete para quem ainda acredita em renovação partidária num barco onde só o comandante tem bússola — e ela aponta sempre para o próprio umbigo.
Trabalhar em paz não é luxo, é sobrevivência
Quem conhece os bastidores da política local sabe: ter um alvo nas costas virou rotina para quem ousa sair da fila ou discordar do tom do maestro. E por mais que o discurso público pregue “pluralidade”, o que vale mesmo é manter a tropa obediente. Ao sair desse ciclo, Savi escolheu algo que tem se tornado revolucionário: paz. Sim, paz. Aquela coisa que permite, por exemplo, organizar campeonatos, fomentar escolinhas, articular projetos e gerar resultado.
E, convenhamos, num governo que vive cercado de críticas muitas vezes feitas por esporte — no mau sentido —, trazer alguém que entende de esporte — no bom sentido — foi uma jogada de craque.
Canela precisa de entregas, não de intrigas
Savi chega ao governo com bom trânsito, disposição para o trabalho e, principalmente, isenção das picuinhas que travam a cidade há décadas. Gilberto Cezar, ao abrir espaço para isso, mostra que Canela está (pelo menos nesse episódio) acima da lógica dos “donos do pedaço”. E isso, no contexto político atual, já é digno de manchete.
Sandro Chagas
Advogado e Jornalista